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O Brasil avançou. Mas a educação dos nossos filhos, avançou também?


Em maio de 2026, o Brasil recebeu uma notícia que merece ser celebrada: pela primeira vez na história, o país alcançou o patamar de "muito alto desenvolvimento humano" segundo o IDH do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Com índice de 0,805, subimos cinco posições no ranking global e saímos de uma categoria que carregávamos há décadas. É um avanço real, fruto de políticas públicas que levaram saúde, renda e educação a milhões de brasileiros que antes viviam à margem disso tudo.


Mas enquanto o Brasil comemorava, uma pergunta ficava sem resposta nas mesas de jantar, nos grupos de pais e nas reuniões de escola: a educação que os nossos filhos estão recebendo hoje, dentro das quatro paredes da sala de aula, está à altura desse avanço?


A conversa que estamos tendo… e a que deveríamos ter


Nos últimos anos, o debate sobre educação no Brasil passou a girar em torno de disputas ideológicas que, na prática, pouco têm a ver com aprendizagem. Pais preocupados passaram a olhar para a escola com desconfiança crescente. A pergunta que dominou grupos de WhatsApp, podcasts e algoritmos foi: o que estão ensinando para o meu filho?


O jornalista e educador Carlos Nadalin, numa reflexão que tem circulado em podcasts sobre educação, tocou num ponto incômodo: é curioso que tantos pais que se dizem atentos à educação dos filhos gastem energia desproporcional monitorando o viés político das aulas, mas raramente se perguntem se aquela escola, pública ou particular, está de fato ensinando a criança a ler com compreensão, a raciocinar sobre números, a resolver problemas do mundo real.


Não se trata de dizer que o conteúdo ensinado não importa. Importa, e muito. Mas há algo revelador na proporção da preocupação: maximalizar o debate sobre doutrinação enquanto se minimiza, ou se ignora completamente, a pergunta sobre qualidade.


O que os dados dizem sobre essa qualidade


O PISA, avaliação internacional que mede o desempenho de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, coloca o Brasil numa posição que deveria incomodar a todos. No último resultado disponível, o país ficou na 65ª posição em matemática, 61ª em ciências e 53ª em leitura, num ranking de 81 países. Estamos atrás de Chile, Peru e Paraguai.


O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) complementa esse retrato: 6,0 nos anos iniciais do ensino fundamental, 5,0 nos anos finais e apenas 4,3 no ensino médio. Numa escala de 0 a 10, o ensino médio brasileiro está na linha da mediocridade. E isso vale tanto para a rede pública quanto, em graus variados, para boa parte das escolas particulares de médio porte.


Pense nisso: um estudante pode passar doze anos numa escola com um currículo impecavelmente "neutro" do ponto de vista ideológico e sair sem saber interpretar um texto jornalístico, sem conseguir calcular uma porcentagem, sem ter desenvolvido a menor capacidade de argumentar. Qual foi o dano real sofrido por esse jovem?


A armadilha da vigilância sem propósito pedagógico


Existe uma diferença fundamental entre pais engajados e pais vigilantes. O pai engajado participa da vida escolar do filho, conhece os professores, acompanha o progresso da aprendizagem, faz perguntas sobre o que foi aprendido, não apenas sobre o que foi dito. O pai vigilante, por sua vez, está em modo de alarme permanente. Espia o caderno à procura de conteúdo suspeito, filma aula para postar nas redes, aciona grupos políticos diante de qualquer material que julgue inapropriado.


O segundo perfil consome energia, gera conflito e, ao final, não responde à pergunta mais fundamental: meu filho está aprendendo?


Há algo de contraditório nessa postura. Famílias que investem significativa parte da renda em mensalidades de escolas particulares, muitas vezes acreditando estar comprando qualidade e tranquilidade ao mesmo tempo, raramente exigem das instituições aquilo que deveriam: resultados de aprendizagem mensuráveis, metodologias claras, professores bem formados e bem remunerados.


Escola boa não é escola silenciosa


Uma escola de qualidade não é aquela onde ninguém fala de nada polêmico. É aquela onde os alunos aprendem a pensar. Onde o professor tem formação sólida e condições adequadas de trabalho. Onde há infraestrutura mínima para que o aprendizado aconteça. Onde o estudante sai sabendo ler de verdade: não apenas decodificar palavras, mas compreender, relacionar, questionar.


Mas há uma camada nessa discussão que raramente é tocada: a formação dos próprios professores. O Brasil forma docentes com deficiências sérias de conteúdo. Muitos chegam à sala de aula sem o domínio profundo das disciplinas que ensinam, sejam matemática, física, português ou ciências. Preparar uma aula densa, desafiadora, com conteúdo de verdade, exige muito mais do professor do que conduzir um debate sobre temas do momento. É intelectualmente mais trabalhoso, exige estudo contínuo, exige que o próprio professor saiba o que está ensinando com segurança e profundidade.


Nesse contexto, não é absurdo considerar que a politização excessiva da sala de aula, em alguns casos, pode funcionar como um subterfúgio. Uma forma de preencher o tempo e gerar engajamento aparente sem precisar enfrentar o esforço real de ensinar conteúdo. Não se trata de uma acusação generalizada a todos os professores. Trata-se de reconhecer que um sistema que forma mal os seus professores colhe exatamente esse resultado: aulas rasas, independentemente do assunto que esteja sendo tratado. E esse tipo de escola de qualidade, aquela que exige do professor tanto quanto exige do aluno, é rara no Brasil. Continuará sendo enquanto o debate público sobre educação for dominado pela pergunta errada.


Não estamos dizendo que valores familiares não importam, ou que pais não deveriam ter voz sobre o que acontece nas escolas. Muito pelo contrário. Mas essa voz será muito mais poderosa e muito mais transformadora quando for direcionada às perguntas certas: Que método de alfabetização a escola usa? Como os professores são avaliados e capacitados? Qual é o índice de aprendizagem efetiva dessa instituição?


O que os alunos do nono ano realmente sabem fazer?

O que a Escolas Abertas acredita


A Associação Escolas Abertas nasceu em Juiz de Fora durante a pandemia, num momento em que famílias e educadores se viram obrigados a repensar tudo o que sabiam sobre escola. Desde então, como entidade sem fins lucrativos, temos acompanhado de perto as questões educacionais da cidade e do país, buscando contribuir para um debate mais qualificado sobre o futuro da educação. Se você também acredita que essa conversa precisa avançar, conheça o nosso trabalho e faça parte dessa rede.


O Brasil que subiu no IDH é o mesmo Brasil que ainda coloca 54% dos seus jovens de 15 anos abaixo do nível básico em pensamento criativo, segundo o PISA. São dois fatos que coexistem e que nos pedem uma postura madura: celebrar o avanço real sem deixar de encarar o problema real.


O maior empobrecimento que uma geração pode sofrer não vem de um professor com opiniões diferentes das suas. Vem do vazio de conhecimento: jovens que chegam à vida adulta sem saber raciocinar, argumentar ou construir qualquer coisa com consistência.


Essa é a conversa que precisamos ter.


Alessandra Mantini - Associação Escolas Abertas Juiz de Fora, MG

 
 
 

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